O Conselho Regional de Serviço Social do Maranhão (CRESS-MA) realizou, no dia 29 de julho, a Reunião Ampliada "Mulheres Negras, Direitos e Territórios: até que todas sejamos livres", integrando a programação da campanha Julho das Pretas do Conjunto CFESS-CRESS. O encontro reuniu assistentes sociais, estudantes, representantes de movimentos sociais, promovendo uma profunda reflexão sobre interseccionalidade, racismo estrutural, soberania territorial e os compromissos ético-políticos da categoria profissional.
A atividade foi mediada pela assistente social e conselheira do CRESS-MA, Lucianne Morais, que destacou que o debate faz referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, prestando homenagem a figuras históricas como Teresa de Benguela, Luíza Mahin e Dandara dos Palmares, além de conectar o debate com o cotidiano de opressão e luta enfrentado pelas mulheres negras nas periferias e territórios tradicionais.
A conselheira também ressaltou que o Conjunto CFESS-CRESS vem fortalecendo uma agenda antirracista por meio de campanhas, políticas de equidade racial e da implementação de comitês antirracistas nos Conselhos Regionais.
Racismo estrutural, emancipação humana e compromisso profissional
A professora Cláudia Durans, conselheira do CFESS, docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e pós-doutora em Serviço Social, abordou a relação entre racismo, capitalismo e desigualdades sociais, defendendo que a emancipação das mulheres negras é condição fundamental para a emancipação da classe trabalhadora brasileira. Partindo de sua trajetória no Quilombo Liberdade e de suas raízes familiares em Peri Mirim, na Baixada Maranhense, a professora articulou os aportes do materialismo histórico-dialético, com base em teóricos como Clóvis Moura, para explicar a transição do escravismo para o capitalismo dependente no Brasil.
Durante sua exposição, Cláudia Durans compartilhou um grave e recente episódio de racismo, machismo e etarismo vivenciado por ela em um serviço de transporte por aplicativo em São Luís, evidenciando como a violência racial atravessa cotidianamente a vida de todas as mulheres negras, independentemente do status acadêmico ou profissional.
"Não existe emancipação da classe trabalhadora no Brasil sem a emancipação da mulher negra. O racismo no Brasil é estruturado e atravessado pela questão da terra e do território. A nossa luta pelo Bem Viver passa pelo combate irrestrito ao preconceito e pela garantia das políticas públicas universais", pontuou Cláudia Durans.
Defesa dos territórios e protagonismo das mulheres negras
A reunião também contou com a participação de Elane Barros, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e acadêmica de Geologia, que apresentou uma reflexão sobre os impactos da mineração e dos grandes empreendimentos na vida das comunidades tradicionais.
Elane apontou como o modelo mineral e a expansão do agronegócio intensificam a proliferação de doenças socioambientais, a dependência econômica, a contaminação por agrotóxicos e a sobrecarga do trabalho de cuidado não remunerado exercido por mulheres negras. A palestrante defendeu a urgência da Reforma Agrária, do fortalecimento da agroecologia e o cumprimento rigoroso do direito à consulta prévia, livre e informada (Convenção 169 da OIT) às comunidades afetadas.
Fortalecimento da agenda antirracista
Durante o debate, a assistente social e presidenta do CRESS-MA, Camila Castro, reforçou que o combate ao racismo constitui um princípio ético inegociável para o Serviço Social. A presidenta pontuou que, no Maranhão, tanto a maior parte da categoria profissional quanto a maioria dos usuários das políticas sociais são compostas por mulheres negras, o que exige uma postura combativa e contínua no cotidiano de trabalho.
"Não existe Serviço Social ético que não seja antirracista. O enfrentamento ao racismo é um princípio profissional inegociável. Assistentes sociais que cometem atos racistas incorrem em séria infração ética e devem ser denunciados e responsabilizados", afirmou Camila.
Como encaminhamento da atividade, foi anunciada a implementação do Comitê Antirracista no âmbito do CRESS-MA, iniciativa que buscará fortalecer ações permanentes de formação, reflexão e enfrentamento ao racismo no exercício profissional e nas políticas públicas.
Realizada como parte da programação do Julho das Pretas, a reunião ampliada reafirmou o compromisso do CRESS-MA com a defesa dos direitos humanos, da justiça social e da construção de uma prática profissional comprometida com o enfrentamento ao racismo, ao sexismo e às demais formas de opressão, fortalecendo o projeto ético-político do Serviço Social.
Conselho Regional de Serviço Social do Maranhão – CRESS-MA
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